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A era da abundância está tornando a criatividade mais preguiçosa?

  • há 21 horas
  • 4 min de leitura
A era da abundância está tornando a criatividade mais preguiçosa?

Como o excesso de recursos, o fenômeno da “unshitification” e a fadiga de escolha estão redefinindo a comunicação


Por décadas, a tecnologia prometeu libertar a criatividade. Hoje, especialistas começam a investigar o efeito inverso: quando tudo está disponível o tempo inteiro, a criação original pode entrar em colapso silencioso.


Em meio a ferramentas automatizadas, algoritmos e abundância de referências, cresce um fenômeno comportamental e cultural que conecta criatividade, economia digital e branding contemporâneo. O excesso de recursos, ao mesmo tempo que acelera a produção, pode reduzir o esforço criativo. E é justamente dessa saturação que surge um movimento emergente: a chamada unshitification da comunicação.


Abundância de escolha pode paralisar a criação

O psicólogo Barry Schwartz já alertava, no clássico The Paradox of Choice, que o excesso de opções nem sempre gera mais liberdade. Pelo contrário: pode gerar paralisia, ansiedade e decisões menos satisfatórias.


A chamada “sobrecarga de escolha” ocorre quando muitas opções disponíveis exigem maior esforço cognitivo, levando à fadiga decisória e até à desistência de tarefas. Estudos apontam que ambientes com abundância não estruturada de escolhas reduzem satisfação e conclusão de tarefas, justamente por sobrecarregar a mente.


Aplicado ao universo criativo, o efeito é direto. Hoje, profissionais têm:

  • milhares de referências instantâneas

  • ferramentas de criação automatizada

  • formatos prontos de conteúdo

  • inteligência artificial gerando ideias


Com tantas possibilidades, o cérebro passa menos tempo criando e mais tempo escolhendo ou ajustando.


Pesquisas recentes sobre criatividade assistida por IA mostram que, embora ferramentas generativas aumentem a produção imediata, usuários tendem a apresentar menor variedade e originalidade de ideias quando dependem delas durante o processo criativo. Outros experimentos indicam que a assistência constante pode prejudicar o desempenho criativo independente no longo prazo.

A consequência não é ausência de produção.É a redução da autoria.


A economia da facilidade e a terceirização do pensamento

Na era digital, pensar profundamente deixou de ser obrigatório para produzir. E isso altera a forma como a criatividade é exercitada. Pesquisas em interação humano-computador mostram que o acesso constante a ferramentas de busca e geração automática cria um fenômeno de “offloading cognitivo”, ou terceirização do pensamento, alterando a percepção de esforço mental e a confiança cognitiva dos usuários.


Na prática, isso significa que parte do processo criativo é delegada à tecnologia.O cérebro entra em modo de edição e curadoria, não de invenção. O resultado é um mercado com alto volume de conteúdo, mas crescente padronização estética e discursiva.


O que isso tem a ver com a “enshittification” da internet

O termo enshittification, criado pelo escritor e pesquisador Cory Doctorow, descreve o processo de degradação progressiva das plataformas digitais ao longo do tempo. Segundo ele, plataformas inicialmente oferecem valor aos usuários, depois priorizam anunciantes e, por fim, passam a priorizar exclusivamente o lucro, reduzindo qualidade e experiência.


Esse ciclo de deterioração de valor e experiência tornou-se tão relevante que o termo foi eleito palavra do ano em 2023 pela American Dialect Society. O impacto disso na comunicação de marcas é profundo.


À medida que plataformas se tornam mais saturadas de anúncios, conteúdos otimizados e formatos replicáveis, a experiência digital se torna:

  • mais previsível

  • mais padronizada

  • menos autoral

  • mais orientada por performance imediata


Ou seja, a lógica de abundância e automatização começa a degradar não apenas plataformas, mas também a qualidade simbólica da comunicação.


Surge a “unshitification”: o retorno ao que é humano

Diante da saturação e da padronização, um movimento contrário começa a ganhar força. Profissionais de comunicação, branding e marketing falam em “desintoxicar” a linguagem e a presença digital.


Esse movimento, conhecido como unshitification, busca recuperar:

  • autenticidade

  • clareza

  • identidade autoral

  • profundidade de pensamento


Em vez de maximizar volume e automação, a proposta é reduzir ruído e reconstruir valor simbólico.



A lógica é simples: em um ambiente onde tudo é produzido rapidamente e com os mesmos recursos, o diferencial competitivo passa a ser o que não pode ser automatizado, visão, repertório e identidade.


Criatividade em tempos de excesso

O paradoxo contemporâneo é evidente. Nunca houve tantas ferramentas para criar. E nunca foi tão difícil produzir algo realmente distinto. A abundância tecnológica ampliou a capacidade de produção, mas também reduziu a fricção que historicamente estimulava a criatividade. Sem limite, silêncio ou tempo de maturação, a criação tende a se transformar em reprodução eficiente.


Estudos sobre sobrecarga de escolha e cognição mostram que ambientes saturados exigem mais esforço mental apenas para decidir, reduzindo energia disponível para pensar profundamente. Isso explica por que tantos profissionais produzem mais, mas sentem menos autoria.


O futuro da criatividade será mais humano

Especialistas em economia criativa e branding começam a convergir em um ponto: o valor simbólico da comunicação está migrando. Quanto mais automação e abundância existem, mais valioso se torna o pensamento original.Quanto mais conteúdo é produzido, mais escassa se torna a identidade. Quanto mais fácil criar, mais raro se torna quem realmente pensa.


A chamada preguiça criativa contemporânea não nasce da falta de talento, mas da ausência de necessidade de exercitá-lo. E é justamente dessa saturação que surge a nova valorização da autenticidade. No cenário pós-algoritmo, a vantagem competitiva não será de quem tem mais ferramentas. Será de quem ainda tem voz própria.

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Quem escreveu esse post

Tainan Cruz, curiosa, inquieta, leitora compulsiva e comunicadora por vocação. Uma pessoa que ama viver noas experiências e compartilhar suas ideias e descobertas sobre a vida. 

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